top of page
Lápis em folha de matemática

Você está aprendendo ou ensinado matemática de forma correta?

Existe uma inversão bastante comum no ensino da matemática: muitas vezes, ensinamos a criança a manipular símbolos antes de ajudá-la a compreender aquilo que esses símbolos representam.
 

O problema é que o ser humano não nasce sabendo calcular, mas nasce capaz de perceber relações matemáticas.
 

Uma criança consegue perceber que há mais objetos em um grupo do que em outro, que algo é maior ou menor, que determinado objeto cabe em um espaço e outro não, que uma quantidade aumentou ou diminuiu e que determinados acontecimentos se repetem.
 

Ela não conhece os números.
 

Mas já consegue pensar sobre quantidades, relações, espaço e padrões.
 

A matemática formal transforma essas percepções em uma linguagem precisa.
 

O cálculo deveria entrar justamente nesse ponto: como uma ferramenta para representar e operar sobre aquilo que o aluno já começou a compreender.
 

Primeiro existe a relação. Depois, o símbolo

O significado antes do símbolo

Imagine uma criança diante de uma árvore.

Ela sabe o que é uma árvore porque consegue reconhecê-la como um objeto concreto do mundo. Não precisa conhecer nenhuma definição científica para saber que aquela coisa é uma árvore.

Agora imagine que começamos a trabalhar com números.

Antes de ensinar regras, podemos construir a ideia de que um número representa uma quantidade ou uma posição determinada dentro de uma relação.

O número 1 pode representar uma maçã, uma árvore ou qualquer outra unidade.

O importante, nesse primeiro momento, não é decorar o símbolo.

É compreender o que ele está representando.

Quando o símbolo passa a ter significado, deixa de ser apenas uma marca no papel.

Valor absoluto: o número considerado em si

Considere o número 5.

Independentemente de onde ele apareça, existe uma quantidade associada ao algarismo 5: cinco unidades.

Essa é uma das primeiras relações que o aluno precisa construir.

O símbolo 5 não é apenas um desenho.

Ele representa uma quantidade.

Se temos cinco árvores, cinco maçãs ou cinco livros, objetos completamente diferentes podem compartilhar a mesma representação numérica porque existe uma relação quantitativa comum entre eles.

O número passa a funcionar como uma forma de representar uma quantidade que não depende do objeto específico.

É uma das grandes abstrações da matemática.

Valor relativo: a posição muda o significado

Depois podemos avançar.
 

Considere o número:

55
 

Os dois algarismos são iguais.
 

Mas eles não representam a mesma quantidade.
 

O primeiro 5 representa cinco dezenas:

50
 

O segundo representa cinco unidades:

5
 

O que mudou?
 

A posição.

Podemos usar uma situação concreta para construir essa ideia.
 

Uma árvore pode ter diferentes funções dependendo da situação em que está inserida. Pode servir de abrigo para animais, produzir frutos, oferecer sombra ou participar de um ecossistema.
 

O objeto é o mesmo, mas a relação estabelecida com ele muda conforme o contexto.
 

Com o número acontece algo semelhante.
 

O algarismo é o mesmo, mas sua posição dentro do número determina o valor que ele representa.
 

Assim, o aluno começa a perceber que:

5 ≠ 50
 

mesmo quando os dois valores são construídos com o mesmo algarismo.
 

O valor relativo nasce da posição que o algarismo ocupa.
 

Isso é muito mais significativo quando o aluno entende a relação do que quando simplesmente memoriza a definição.

E então aparece o decimal

Podemos fazer algo semelhante com os números decimais.
 

Imagine uma maçã inteira.
 

Podemos representá-la por:

1
 

Temos uma unidade inteira.
 

Agora damos uma mordida.
 

A maçã deixou de ser uma unidade inteira
.

Mas ela também não desapareceu.
 

Temos agora uma quantidade menor que 1 e maior que 0.
 

Dependendo do tamanho da mordida, podemos representar essa quantidade por diferentes números decimais.
 

Por exemplo:

0,9; 0,8; 0,75; 0,50.
 

O ponto fundamental não é decorar onde colocar a vírgula.
 

É compreender por que precisamos de números menores que 1.
 

A criança percebe primeiro a situação:

 

      “Ainda existe uma parte da maçã, mas ela não é mais uma maçã inteira.”

Depois vem a representação:

0 < x < 1
 

E posteriormente podemos ensinar diferentes formas de representar essa quantidade.
 

O decimal passa a responder a uma necessidade que o aluno já consegue compreender.

O cálculo deveria vir depois do significado

Esse princípio pode ser aplicado a praticamente toda a matemática escolar.

Antes de ensinar a multiplicação, podemos construir a ideia de grupos iguais.

Antes da divisão, a ideia de repartir e agrupar.

Antes das frações, a ideia de partes de um todo e relações entre quantidades.

Antes dos números negativos, situações em que uma quantidade pode representar posições ou valores abaixo de uma referência.

Antes das equações, a ideia de que uma quantidade desconhecida pode ser determinada a partir das relações que ela estabelece com outras quantidades.

A sequência pode ser:

experiência → percepção → relação → representação → cálculo → abstração.

Não significa que toda matemática precise começar com objetos físicos.

À medida que o estudante avança, a própria matemática passa a fornecer os objetos sobre os quais ele pensa.

Mas existe uma diferença fundamental entre aprender a manipular um símbolo e compreender o que o símbolo representa.

Matemática não é apenas cálculo

Talvez parte da dificuldade no ensino de matemática esteja justamente nessa inversão.

O aluno aprende:

3 + 2 = 5

mas não necessariamente compreende que isso representa uma transformação de quantidade.

Aprende que:

12 + 13

exige determinado procedimento, mas pode não compreender a relação entre as duas quantidades.

Aprende que o 5 em 55 representa 50, mas pode ter decorado a regra sem compreender por que a posição altera seu valor.

Nesse cenário, o aluno aprende procedimentos matemáticos sem construir suficientemente as relações matemáticas que justificam esses procedimentos.

E isso cobra seu preço quando os exercícios deixam de se parecer com aqueles que ele já praticou.

O objetivo é construir pontes

O cálculo não é o inimigo.

A memorização não é o inimigo.

Os algoritmos não são o inimigo.

Todos são ferramentas importantes.

O problema aparece quando a ferramenta é apresentada antes de o aluno compreender o problema que ela resolve.

O objetivo do ensino não deveria ser apenas fazer com que o estudante consiga chegar à resposta.

Deveria ser fazer com que ele compreenda por que aquela resposta faz sentido e por que aquele procedimento funciona.

O ser humano já chega à educação formal percebendo quantidades, comparações, padrões e relações.

A matemática escolar pode aproveitar essa capacidade e transformá-la progressivamente em uma linguagem cada vez mais precisa.

Primeiro, a criança percebe; depois, relaciona; depois, representa; depois, calcula.

E finalmente consegue manipular conceitos que já não precisam estar presentes no mundo concreto para serem compreendidos.

A abstração matemática não precisa ser o ponto de partida.

Ela pode ser o ponto de chegada de um caminho no qual cada novo símbolo encontra um significado ao qual se conectar.

Prátique

1. Segundo o texto, qual é a principal inversão apontada no ensino da matemática?
2. No exemplo apresentado, por que o algarismo 5 pode representar 50 em um número como 55?
3. Qual é a principal ideia apresentada no exemplo da maçã?
4. Qual sequência representa o fluxo de aprendizagem matemática defendido no texto?
5. Qual é a posição do texto em relação ao cálculo, à memorização e aos algoritmos?

©2025 / 2026 - Exathos 

bottom of page